Projecto: Trabalhos em taipa integrados na consolidação e restauração dos parametros da Fortaleza da Juromenha
Publicado em:

Figura 1 – Vista panorâmica da fortaleza de Juromenha
1. INTRODUÇÃO
Pretende-se dar a conhecer alguns aspetos associados à temática específica da reconstrução em taipa, na obra que a HCI levou a efeito na Fortaleza de Juromenha, nomeadamente dos troços arruinados da cerca islâmico-medieval que resistiram à passagem do tempo no interior da fortaleza abaluartada seiscentista, bem como da taipa militar existente que encimam aquela e que constitui os designados merlões defensivos entre os quais pontuam as canhoeiras disseminadas em todo o seu perímetro.
2. ENQUADRAMENTO HISTÓRICO
Trata-se esta empreitada de uma intervenção com características muito particulares, ou não se tratasse de intervir sobre um edificado classificado como Imóvel de Interesse Público, através do Decreto de Lei n.º 41 191, DG, 1.ª série, n.º 162, de 18 julho de 1957 e mais recentemente englobado por disposições específicas (constantes da secção II, Zona B – Fortaleza de Juromenha abrangendo a fortificação moderna, a Fortaleza Principal, o Forte de São Lázaro e o Hornaveque) do Plano de Salvaguarda e Reabilitação do Centro Histórico da Vila de Juromenha, publicado no Diário da República, 2ª Série, nº 190, de 1 de Outubro de 2012, cujas primeiras referências históricas remontam à 2ª metade do século IX ainda sob o domínio muçulmano até o sítio ser conquistado por D. Afonso Henriques em 1167 e posteriormente reconquistado em 1243 por D. Paio Peres Correia no final do reinado de D. Sancho II, isto depois de entretanto a praça ter voltado ao domínio do califado em 1191 no reinado de seu avô, D. Sancho I, filho do fundador.
No século XIV D. Dinis conferiu foral ao sítio e manda reconstruir totalmente o castelo com alguns dos paramentos aproveitados do castelejo em taipa construído durante o domínio islâmico.
Após a restauração no reinado de D. João IV foram promovidas grandes obras de adaptação do castelo existente para uso da artilharia durante a guerra desencadeada nessa altura com a construção do perímetro abaluartado que circunda a muralha islâmica e medieval cristã.
Em 1662 a fortaleza foi tomada pelo exército de D. João de Áustria, meio-irmão de Filipe II de Espanha, I de Portugal, com a “preciosa” ajuda do projetista da fortaleza seiscentista, Nicolau de Langres de seu nome e que se havia bandeado ao serviço de Espanha como sargento-mor do Estado-Maior do Exército de Filipe IV, III de Portugal até 1640, regressando a fortaleza à coroa portuguesa apenas na sequência da chamada Paz Geral em 1668.
Em 1801 a fortaleza é tomada pelo exército espanhol comandado por D. Manuel Godoy no decurso da Guerra Peninsular, conhecida como a Guerra das Laranjas, na sequência da qual Portugal perde para Espanha o território de Olivença, e que Espanha, aquando da assinatura do Tratado de Viana em 10 de outubro de 1817, após a derrota da França napoleónica, se comprometeu a devolver o mais rápido possível, promessa essa jamais cumprida ficando até hoje a fronteira por delimitar nesta zona.
No início do século XX a vila foi atingida pela peste bubónica que dizimou e fez despovoar a fortaleza, começando-se a fixar alguma dessa população sobrevivente no exterior da mesma, tendo o estado de degradação, já bem patente nessa altura, atingido proporções assinaláveis e que só nos anos 50 do século passado o edificado mereceu ser alvo de obras de reparação promovidas pela DGEMN de forma descontínua até à década de 80.
Mais recentemente o Governo, por Resolução da Assembleia da República nº 179/2017, recomendou incluir a Fortaleza de Juromenha na lista de imóveis do Programa REVIVE, ocorrendo já posteriormente o colapso de uma das torres do castelo.
Perante tal panorâmica histórica é por demais evidente a importância do sítio objeto da intervenção proposta, a que se seguirão outras para tornar o sítio visitável com parâmetros de segurança e comodidade requeridos em situações e conteúdos deste género com vista a ser apresentado e usufruído por quem o visita.

Figura 2 – Fases Construtivas da Fortaleza de Juromenha
3. ANTECEDENTES DA CONSTRUÇÃO EM TAIPA NO SUL DE PORTUGAL
A construção de taipa em Portugal está sobretudo ligada ao sul por herança do mundo islâmico de que fez parte até à conquista cristã da faixa ocidental da Península Ibérica e que enformou o território continental português a partir do reinado de D. Afonso III em 1249 tal como o conhecemos hoje à parte uma ou outra concavidade ou saliência na faixa raiana que ao longo do tempo tem confinado com o território vizinho, castelhano mais a norte e islâmico a sul para lá do Guadiana até a “mancha” cristã se ter alastrado por toda a Península com a conquista de Granada em 1492.
É, pois, sobretudo no Alentejo e Algarve que a construção com terra compactada, previamente caldeada com cal viva, em pedra ou pó, após a sua transformação em pasta (apagamento, por reacção com a água), foi subsistindo ao longo dos séculos até praticamente à primeira metade do século XX, associada sobretudo à pobreza da região e à sua escassez de recursos, caso do vasto património civil construído ainda muito visível, embora arruinado e normalmente já desabitado, tanto em núcleos rurais que deixam antever terem sido destinados a habitação de casario térreo, como em anexos de apoio à actividade agrícola de subsistência disseminados pelo território rural.
Para além desta vertente habitacional e de apoio à actividade agrícola que sempre caracterizou o sul do país, havia a construção de características militares, mais defensiva, como são os casos dos castelos, muralhas ou fortificações que igualmente eram imprescindíveis para defesa de incursões inimigas, quer fossem ainda provenientes do mundo islâmico, quer do mundo cristão até praticamente aos inícios do século XIX com a chamada Guerra das Laranjas ou Guerra da Segunda Coligação, antecessora da chamada Guerra Peninsular conhecida em Portugal como as Invasões Franceses e em Espanha como Guerra da Independência, período em que Portugal foi bastante fustigado militarmente, nomeadamente no Alentejo devido à sua orografia pouco altaneira e por isso facilitando o avanço de tropas inimigas, situação recorrentes desde praticamente o século XIV aquando das guerras com Castela no seguimento da chamada Crise de 1383-85, de cujos protagonistas principais se destacou a figura proeminentes do próprio rei D. João I e sobretudo o seu condestável D. Nuno Álvares Pereira, ele próprio senhor de vastas possessões no Alentejo que no decurso do reinado do primeiro foi acumulando com o beneplácito da coroa.
No território que viria a constituir Portugal como hoje o conhecemos, as primeiras fortificações militares terão sido erigidas no período Omíada (século VIII), muito embora só mais tarde, no período Almorávida e Almóada (século XII e XIII), o uso da taipa militar se tenha mais generalizado.
Tal como se pode facilmente supor a taipa militar distingue-se da civil pela sua maior resistência e durabilidade, através da inclusão de materiais (adição de cal e materiais cerâmicos) que na civil se poderiam dispensar, mais difíceis de adquirir e, por isso, bem mais caros de obter pela paupérrima população que habitava os campos em tempos mais recuados a sul do Tejo.
Exemplo de uma fortificação de caraterísticas defensivas é o caso da cerca medieval e islâmica cuja ruína ainda subsiste nalguns dos seus troços originais no interior da Fortaleza de Juromenha e à qual, entre outras do mesmo género, o Estado Novo, a partir de meados do século XX, por uma questão de centralidade política e ideológica, começou a dar crescente importância classificando-as como “monumento nacional” e nos quais a Direcção Geral de Edifícios de Monumentos Nacionais, criada em 1929 deu início a algumas campanhas de preservação e reabilitação mais ou menos bem sucedidas com desprezo pelo edificado civil cuja preservação patrimonial e histórica poderia igualmente ter sido interessante, mas que obviamente não teria grande cabimento nos cânones da política e ideologia vigentes.
4. O ESTADO DA ARTE
A terra é seguramente um dos mais antigos materiais de construção usados pelo homem como atestam as evidências arqueológicas, em especial a partir do período neolítico e sobretudo, em primeiro lugar, na China (2300-1800 AC) e posteriormente nas colónias fenícias por volta de 800 AC que ponteavam nessa altura na região do Mediterrâneo, sendo a taipa uma das técnicas mais utilizadas, onde a terra, pela sua abundância, constituiu o material de eleição desde os primórdios da humanidade quando o homem, caçador-recolector deambulando em bandos e tribos à procura de comida para sobreviver e acoitando-se em grutas naturais para se defender do ataque dos animais através do ateio de fogueiras, passou a tornar-se mais sedentário construindo a sua própria habitação com o que tinha mais à mão, a terra que pisava.

Figura 3 – Troços da Muralha da China construídos em taipa na Província de Ningxia
A taipa, cujo termo deriva do taipal que previamente é executado com vista a confinar a terra colocada por camadas de espessura reduzida e permitir assim, paulatinamente, a sua compactação, foi usada como solução construtiva ao longo de milénios até ao aparecimento de soluções mais resistentes, sobretudo aos sismos, e por isso mais duráveis ao longo do tempo através da utilização do aço e mais tarde do betão, o que de alguma forma marginalizou a taipa na técnica e regulamentos construtivos que foram sendo legislados nos países mais desenvolvidos na 1ª metade do século XX, e sobretudo após o apocalipse da 2ª Guerra Mundial com a destruição completa de grandes cidades europeias, muito embora atendendo ao estado de destruição do edificado existente e o estado de pobreza de alguma população sobrevivente, a taipa tenha sido ainda um recurso bastante utilizado na reconstrução posterior à catástrofe.
Recentemente as questões ecológicas e ambientais introduzidas no sector da construção civil, com o impulso de movimentos e grupos associados à temática ambiental e a procura de clientes particularmente cativados para este tipo de soluções, sobretudo ao nível da reabilitação ou construção de raiz de moradias de pequena envergadura, têm contribuído para a retoma, ainda que muito residual, de técnicas ancestrais menos agressivas para a natureza como é o caso da taipa e do adobe (alvenaria de tijolos de barro moldados em molde de madeira secos ao sol, normalmente menos resistente e cuja caracterização ultrapassa o âmbito do presente documento).
Na Península Ibérica a taipa terá sido introduzida durante a ocupação árabe a partir do século VIII, sobretudo em construções defensivas e algumas alcáçovas albergando residências de senhores locais, designada por taipa real (com um reboco de protecção em que a cal predomina) e cujos exemplos mais significativos subsistem em Espanha e de que Alhambra em Granada é disso exemplo maior.
O taipal tradicional pode variar na configuração dos seus componentes, mas o princípio de utilização e funcionamento na rotação do mesmo terá necessariamente de ser muito semelhante quanto às suas várias peças e acessórios de madeira que o compõe.

Figura 4 – Nomenclatura clássica associada ao taipal para construção em taipa
A compactação é manual e tradicionalmente com recurso a maços e pilões igualmente de madeira maciça e de reduzida superfície de impacto, precisamente com vista a maximizar o coeficiente entre a força que lhe é conferida pelo operador acrescida do seu peso próprio e a superfície da camada de terra que é impactada de forma contínua e cadenciada.
5. VULNERABILIDADES MAIS SIGNIFICATIVAS DA CONSTRUÇÃO EM TAIPA EM GERAL
Apesar de algumas vantagens evidenciadas na construção em taipa quando comparadas com aquelas que se conseguem com materiais mais modernos, como sejam a sua elevada sustentabilidade, a sua excelente resistência ao fogo, uma boa inércia térmica e isolamento acústico, o seu processo construtivo é simples e pouco exigente em termos da mão-de-obra especializada e equipamento de apoio mais sofisticado, patenteando por outro lado desvantagens igualmente significativas:
- Mão-de-obra abundante, o que faz com que, onde a mesma seja escassa, onere bastante a construção em taipa;
- Manutenção significativa e mais frequente do que aquela que as construções mais modernas possam exigir;
- Reduzida resistência mecânica e comportamento frágil à erosão dos elementos e completa inaptidão em zonas de elevada sismicidade, sobretudo um reduzido comportamento a acções sísmicas que se manifestem perpendiculares ao seu plano limitando significativamente a altura dos edifícios a um ou dois pisos, ou seja, à clássica moradia unifamiliar isolada ou, preferencialmente, geminada.
Apesar da sua reduzida resistência sísmica, grande parte da construção em taipa está paradoxalmente associada a países de elevada sismicidade, cuja frequência é bastante grande e quando tais episódios ocorrem são normalmente devastadores com enormes perdas económicas e humanas.

Figura 5 – Distribuição geográfica da construção em terra (esq.) e da perigosidade sísmica (dir.)

Figura 6 – Cidadela de Bam (Irão), Património Mundial pela UNESCO, antes e depois do sismo de 26 de Dezembro de 2003
A dificuldade deste tipo de construção estará, assim, normalmente associada à envergadura da parede que se quer levantar sem qualquer contraforte ou travamento no sentido transversal ao seu plano.
6. O CASO DE ESTUDO DA MURALHA ISLÂMICA E MEDIEVAL DA JUROMENHA
O caso de estudo diz respeito a uma cerca islâmica com troços que subsistem da 2ª metade do século IX até ao século XI e posteriormente mandada reabilitar e acrescentar por D. Dinis (que reinou entre 1279 e 1325), resistindo assim à erosão do tempo e à fúria dos homens nas inúmeras guerras e escaramuças ocorridas no seu cenário, especialmente no decurso destes últimos 700 anos como praça cristã, muito embora a coberto da muralha que a circundou por alturas da Restauração da Independência Nacional em 1640 onde a luta já não era tanto corpo a corpo, mas utilizando projécteis arremessados de longe e fazendo ainda mais mossa.
Por tudo isto, apesar de alguns arremedos de manutenção durante o Estado Novo, podemos dizer que muito bem se construía taipa há 700 ou 800 anos, ou então muito terá sido poupado o farelhão da Juromenha da actividade tectónica alpina originada pela deformação pós-varisca do pequeno sector do nordeste alentejano compreendido entre as povoações de Terena e Juromenha e aparentemente condicionada pela Falha Messejana-Ávila que atravessa o Alentejo de SW-NE, um dos acidentes tectónicos mais extensos da Península Ibérica e um dos que maior influência tem na actividade sísmica no Alentejo, para além do prolongamento sismogénico da falha da Nazaré a norte de Évora, embora de menor expressão.

Figura 7 – Sismicidade histórica e instrumental em Portugal Continental
As estruturas arruinadas presentes na cerca islâmica e medieval do castelo da Juromenha apresenta, isso sim, um manifesto abandono e escassez de recursos económicos ao longo do tempo, sobretudo após o abandono da população que lá habitou até inícios do século XX, para preservar os dois níveis de muralhas que o constituem, especialmente o interior que agora se pretende parcialmente reconstruir e minimamente preservar com a intervenção em curso, decerto a primeira que o sítio conheceu de forma completa e mais abrangente, sendo que aquela que maiores dificuldades e riscos encerra, precisamente por se tratar de estruturas bastante degradadas e com alguns troços de altura apreciável.

Figura 8 – A designada Porta Norte do Castelejo Medieval da Juromenha

Figura 9 – Fotogrametria do troço interior que integra a Porta Norte
(as linhas horizontais estão afastadas de 1 m)

Figura 10 – Planta e silhueta interior propostas para o mesmo troço no qual estão incluídas três torres que salientam para o exterior da cerca
A maior dificuldade não é tanto elevar troços já inexistentes, como os de cor acastanhada (à direita do arco), cuja fundação já existe (normalmente executada com pedra irregular aglutinadas com cal), mas sim reconstruir os troços de cor laranja “ensanduichando” a taipa existente com taipa nova com vista a estabelecer a espessura original da muralha com cerca de 2 m de espessura.
Com efeito, para além dos aspectos associados ao desmonte de algumas “pontas” para garantir a regularidade do alçado e limpeza da ruína a preservar, a reconstrução da muralha deixando no seu interior a ruína medieval constitui igualmente um verdadeiro desafio associado à dificuldade em prever o comportamento futuro da sanduiche com materiais separados sete ou oito séculos, muito embora o mais idênticos possível.
7. METODOLOGIA DE TRABALHO
Os trabalhos preconizados no projeto para consolidação e reconstrução dos paramentos em taipa medieval islâmica e cristã passaram assim, numa primeira fase, por uma campanha de análises e ensaios com o objetivo de determinar a formulação a adotar na taipa nova, muito embora a taipa velha se apresentasse bastante heterogénea devido às diversas etapas de construção e reconstruções que foi sofrendo ao longo do tempo.
Assim sendo, a campanha de análises e ensaios tiveram inicialmente como objetivo caracterizar alguns aspetos físico-químicos e mecânicos das terras que constituíam a taipa existente, através de metodologia apropriada e ensaios laboratoriais que a pudessem complementar mediante a extração de materiais ou provetes retirados de diversos locais a caracterizar.
As amostras de taipa e terras, após recolhidas nos trabalhos de campo seriam então encaminhadas para um laboratório certificado. Dos laboratórios contactados, entre eles o LNEC, o que se mostrou mais disponível para realizar em tempo útil e mais compatível com os “timings” da obra, foi a ACIV – Associação para o Desenvolvimento da Engenharia Civil do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
8. PLANO DE AMOSTRAGEM E TRABALHOS DE CAMPO
O Plano de Ensaios previamente aprovado definiu a seguinte localização das zonas de recolha de amostras de taipa:
- 3 amostras de taipa existente extraídas das zonas a seguir indicadas;

Figura 11 – Planta da Fortaleza com as zonas definidas para recolha de amostras de taipa
- 1 amostra de terra extraída de um derrube de taipa existente;
- 2 amostras de terra na proximidade da fortaleza;
- 3 amostras de provetes de taipa nova executados no estaleiro.
Relativamente às terras, para além da existente no local e que veio a verificar-se insuficiente, para além da manifesta dificuldade em obter terras de locais na envolvência, designadamente na zona da obra, decidimos optar por ensaiar uma terra solta e seca de um fornecedor perto de Badajoz que se dedica ao fabrico de tijolo ecológico (BTC – Bloco de Terra Compactada) e um agregado saibroso de um fornecedor local.

Figura 12 – Prospeção de terras nas imediações da Fortaleza

Figura 13 – Depósito de terra removida do interior da Fortaleza
Figura 14 – Amostra de agregado saibroso (fornecedor de elvas)
A obtenção de carotes retiradas diretamente das estruturas em taipa existente mostrou-se bastante problemática. A constituição e fragilidade das estruturas em causa, tornou a operação tecnicamente impossível de forma a obter carotes que minimamente pudessem caracterizar a taipa existente de forma fiável, pelo que se optou por adotar amostras geometrizadas em laboratório obtidas de blocos de derrubes existentes na obra.

Figura 15 – Tentativa falhada de obtenção de carote de taipa na muralha abaluartada

Figura 16 – Tentativa falhada de obtenção de carote de taipa na muralha medieval islâmica

Figura 17 – Tentativa de extração de carote de taipa medieval a partir de um derrube

Figura 18 – Alguns exemplos de carotes extraídas

Figura 19 – Preparação de blocos de taipa existente para geometrização em estaleiro

Figura 20 – Geometrização de amostras de taipa em laboratório
Com vista a determinar a composição mais adequada para o fabrico de taipa nova em obra, foram ainda executados uma série de provetes (cerca de 20), dos quais se elegeram quatro para serem submetidos a análise laboratorial.

Figura 21 – Provetes de taipa produzidos no estaleiro

Figura 22 – Provetes de taipa enviados para análise laboratorial
As dimensões, datas (de produção e ensaio) e constituição destes quatro eleitos são apresentadas no quadro seguinte:

Quadro 1 – Caracterização e Constituição dos provetes eleitos
9. AMOSTRAS ENVIADAS PARA ENSAIO LABORATORIAL
As amostras enviadas para o laboratório podem ser resumidas no seguinte quadro:

Quadro 2 – Identificação das amostras enviadas para o Laboratório da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade de Coimbra
10. CAMPANHA DE ANÁLISES E ENSAIOS
Em matéria de análises e ensaios que foram solicitados ao laboratório, assim como o procedimento normativo aplicável em cada um, podem resumir-se no quadro seguinte:

Quadro 3 – Análises e Ensaios solicitados no Caderno de Encargos
11. RESULTADOS DAS ANÁLISES, ENSAIOS E CONCLUSÕES
11.1- Densidade (quociente entre a massa e o volume aparente)

Quadro 4 – Determinação da Densidade
Conclui-se que a densidade das amostras produzidas no estaleiro é ligeiramente superior à do material existente.
11.2- Resistência à Compressão (axial, com controlo de deformação mediante a aplicação de um incremento de carga de 0,18 mm/min.)
Nota: previamente ao ensaio as faces de aplicação da carga foram retificadas com uma capa de enxofre de forma a assegurar a planeza das faces.

Quadro 5 – Resistência à Compressão
Os provetes P1 e P2 apresentam valores de resistência à compressão inferiores aos dos verificados nos ensaios dos blocos geometrizados da taipa existente, muito embora estes, recolhidos em duas zonas distintas da muralha medieval, uma na muralha medieval islâmica (zona Z2) e outra na muralha medieval cristã (zona Z3), nas duas amostras geometrizadas recolhidas em cada uma das zonas, exibam valores igualmente muito díspares: 8,70 e 4,71 MPa na Z2 e 9,17 e 4,49 MPa na Z3.
Por este facto, em matéria de resistência à compressão, os provetes P1 e P2, com valores inferiores aos dois mínimos encontrados no material pré-existente, foram desde logo rejeitados.
11.3- Análise Granulométrica
Foi avaliada a distribuição das partículas das amostras da terra solta existente no local da obra (TE), na terra nova de Badajoz (TN) e do agregado saibroso de Elvas (TS), através da análise granulométrica para D<4 mm e com sedimentação. As curvas e fuso recomendado apresentam-se na figura seguinte.
A terra proveniente de Badajoz (TN) sai ligeiramente do fuso recomendado nas bandas do silte e da areia, muito embora tal desvio não seja impeditivo da sua utilização na constituição das taipas a executar.
Por outro lado, embora nenhuma das terras ensaiadas possua o teor de argila mínimo recomendado, a incorporação de uma quantidade apreciável de cal (NHL 3,5 na constituição do P8) ou de mistura de cais (2/3 de NHL 3,5 e 1/3 de aérea na constituição do P4) poderá facilmente conferir às três terras o ligante suficiente ao material constituinte da taipa a executar.

Figura 23 – Curvas Granulométricas das terras analisadas e fuso recomendado para a taipa
11.4- Análise Mineralógica por XRD
Determinou-se a constituição mineralógica através da difração de raios X (XRD) das amostras de taipa A1, A2, C2, TE, TN e TS (ver n.º 5 anterior), cujos resultados se apresentam:

Quadro 6 – Análise Mineralógica
11.5- Análise Química por XRF
Determinou-se ainda a constituição química através de fluorescência de raios X (XRF) das amostras A1, A2 e C2 (ver n.º 5 anterior) com os seguintes resultados:

Quadro 7 – Constituição Química
Dos valores dos quadros 6 e 7 relativos à taipa existente, podemos concluir que o material possui, para além de grandes quantidades de carbonato de cálcio, elevados teores de silício e de cálcio. Embora daqui não possamos tirar grandes conclusões sobre a quantidade de cal incorporada na taipa original, o facto da terra existente (TE) possuir elevado teor de carbonato de cálcio faz intuir que tenha sido empregue uma significativa quantidade de cal (aérea, já que antigamente, até ao aparecimento da cal hidráulica há cerca de 200 anos, seria a cal aérea o ligante usado nas construções) na mistura para ser usada na taipa original existente.
11.6- Limite de Consistência e Índice de Plasticidade
Dos ensaios realizados com o material da terra existente (TE), da terra nova (TN) e do agregado saibroso (TS), pôde concluir-se em todos tratar-se de material não plástico, donde não é possível calcular qualquer limite de liquidez ou de plasticidade, ou sequer o seu índice de plasticidade por não ser aplicável pelos mesmos motivos.
11.7- Ensaio de Compactação Proctor
Relativo às três terras em estudo foram realizados ensaios de compactação, cujos resultados se apresentam nos quadros seguintes:

Quadro 8 – Ensaio Proctor na terra existente TE

Quadro 9 – Ensaio Proctor na terra nova TN

Quadro 10 – Ensaio Proctor no aglomerado saibroso (TS)
Ao comparar os valores da baridade seca máxima com as densidades obtidas nos ensaios dos quatro provetes eleitos, somos levados a concluir que os valores destes últimos poderão ser considerados aceitáveis, devendo o teor de água ótimo determinado no ensaio de compactação (15,5% para a terra TE; 5,3% para a terra TN; e 11,7% para o saibro TS) ser compatibilizado com os valores da baridade seca máxima determinada em cada uma das terras (1,60 g/cm3 na terra TE; 2,25 g/cm3 na terra TN; e 1,88 g/cm3 no saibro TS).
11.8- Teor de Matéria Orgânica
Os resultados obtidos (norma BS EN 13039) nas três terras em estudo foram os seguintes:

Quadro 11 – Teor de Matéria Orgânica
De forma natural a terra existente em obra (TE) é a que apresenta percentagem de matéria orgânica ligeiramente superior à recomendada para a taipa. No entanto, uma vez que na constituição dos provetes recomendáveis (P4 ou P8) é preconizada uma mistura de TE com TN com igual volume na P4 e uma mistura de TE com TN e TS na proporção, respetivamente, de 2TE para 1TN e 0,5TS, aquela questão foi considerada desprezável.
12. EXECUÇÃO DOS TRABALHOS
Após a montagem de andaimes e plataformas de trabalho à superfície de taipa existente, procede-se à verificação do estado das superfícies com vista ao desmonte prévio dos troços irremediavelmente “perdidos” e em risco de queda, bem como proceder a uma desinfestação biológica e limpeza manual criteriosa generalizada das superfícies arruinadas existentes.

Figura 24 – Fotogrametria do troço I12 da muralha medieval interior

Figura 25 – Planta do troço I12 da muralha medieval interior

Figura 26 – Proposta de alçado para o troço I12 da muralha medieval interior

Figura 27 – Corte assinalado na planta do troço I12 da muralha medieval interior
(com a taipa existente a cinzento)
Nos troços já inexistentes deverá previamente executar-se (caso não exista) uma fundação executada com pedra de dimensão média aglutinada com argamassa de cal e areia previamente definida e igualmente ensaiada no mesmo laboratório, tal como aconteceu com a argamassa a usar na conservação e restauro das alvenarias de pedra das muralhas abaluartadas e nos revestimentos a aplicar generalizadamente nos merlões e canhoeiras destas muralhas como no coroamento das taipas com vista a minimizar a erosão da taipa provocada pela água das chuvas.
A taipa em altura passa depois pela execução de moldes (cofragem) característicos neste tipo de construção no interior dos quais se vão paulatinamente depositando camadas da mistura previamente fabricada, com cerca de 10 a 15 cm de espessura, para serem posteriormente compactadas deixando um intervalo entre moldes para encher e compactar em segunda fase.

Figura 28 – Cofragem (Taipal) apropriada para executar taipa
(sem taipa existente, a manter ensanduichada entre os troços a executar)
O material será compactado com maços de madeira em cunha ou compactadores mecânicos semelhantes aos das figuras abaixo e posteriormente alisados para receber a camada seguinte, sendo que a espessura de cada camada no final da operação rondará entre metade e 1/3 da espessura inicial depositada no molde.

Figura 29 – Ferramentas usadas na compactação da taipa

Figura 30 – Troço de muralha e torre adjacente já concluídos
(onde se podem observar as agulhas usadas para “atirantar” os taipais)
A fiada de moldes (com cerca de 2 m de largura) deverá ser sucessivamente replicada em altura até perfazer a altura total da muralha a reconstruir. Trata-se de uma atividade bastante morosa, sendo que nesta frente em concreto, no máximo, poderão ser observados rendimentos que não ultrapassam 5 ou 6 m3 por dia com uma equipa dedicada de 7 a 8 trabalhadores, incluindo os adstritos à laboração de equipamento misturador, preferencialmente misturadoras horizontais (figura 31) para garantir a qualidade da mistura (a distribuir pelas várias frentes que estejam na mesma fase de obra), o respetivo manobrador e a serventia encarregues de elevar a mistura para os oficiais depositarem e compactarem devidamente.
Aqui chegados e relativamente à utilização das autobetoneiras para proceder à mistura da taipa em quantidade, devemos referir que a adaptação não foi muito feliz. A autobetoneira, tal como o próprio nome indica, é um equipamento para transportar betão; não é adequado, até porque, ao contrário do que passa parecer, danifica fortemente o equipamento, embora a tenhamos utilizado de início com resultados satisfatórios à custa da saúde da máquina.
A solução ideal encontrada para garantir uma maior produtividade sem danificar o equipamento foi conseguida à custa de misturadoras do tipo das assinaladas na figura 29 que ao trabalhar na horizontal obstam o empenamento do veio do tambor das betoneiras comummente usadas devido ao tombo provocado pela mistura por efeito da colagem conferida pela cal nas paredes da cuba, efeito que com o betão ou a argamassa de cimento não ocorre por estarmos perante uma mistura fluída e revolta pela movimento contínuo da cuba no seu transporte. A mistura da taipa é uma mistura apenas humedecida dependendo muito das condições atmosféricas que se fazem sentir e sobretudo das instruções do mestre encarregado da frente de obra com vista ao fabrico da mesma de conformidade com o definido após a campanha de ensaios inicial.

Figura 31 – Tipo de Misturadoras usadas no fabrico da mistura do material que acabámos por adoptar visando o aumento da produtividade em obra e em simultâneo poupar o equipamento
____________________________________________________________________________
Bibliografia:
Miguel Rocha (arq.), agosto 2022 - Relatório de Execução do Plano de Ensaios para Seleção de Materiais e Procedimentos para novos elementos de taipa a executar na empreitada
Pedro Pacheco Arquitectos | José Aguiar, outubro 2020 – Memória Descritiva e alguns extratos de peças desenhadas do Projeto de Execução da empreitada
- A. Silva (aluno de doutoramento), D. V. Oliveira (prof. auxiliar) e P. B. Lourenço (Prof. catedrático) da Universidade do Minho, Guimarães (Portugal) e L. Schueremans (Prof. auxiliar) da Katholieke Universiteit Leuven, Heverlee (Bélgica) – Sísmica 2010 – 8º Congresso de Sismologia e Engenharia Sísmica